Em dois cantos extremos, opõe-se dois países, periféricos do mesmo continente Europa.
Na “Jangada de Pedra”, Saramago enunciou a viagem da Península Ibérica pelo Oceano Atlântico fora, até ao destino em que culturalmente sempre devia ter estado, um ponto entre a América do Sul e a América central.
A noção de identidade influi a questão, se Portugal se dista da cultura europeia e se se pretende lançar mar fora até outros continentes, não o quererá também a Finlândia, junto da sua Península fazer? Será que se sentem como pertencentes à mesma cultura que a Alemanha e a França? Ou, levantando uma questão que poderemos, eventualmente, responder, será que sentem como pertencendo à mesma cultura que Portugal? E Portugal, como vê a Finlândia?
Finlândia e Portugal, antípodas culturais do pé de terra a que chamamos Eurásia, marginais perante a imponente Europa central. Este projecto procura explorar as duas culturas e a eventual segregação do restante continente.
Os contrastes encontram-se nos mais simples níveis, no domínio religioso do protestantismo e, em menos peso, católico ortodoxo finlandês, com o domínio apostólico português; nos dias e noites infinitas com os dias e noites finitos; nos espaços amplos e funcionais com os espaços apertados e estéticos, no kitsch com o anti-kitsch, na tradição e folclore, em Jolly Braga Santos, Lopes Graça e Sibellius, de Manoel de Oliveira a Aki Karusimaki (ainda teria de ver os filmes, é só conceito), nas raízes linguísticas, nas diferentes abordagens da interacção social, da sexualidade, no papel económico que desempenham perante a União Europeia.
Ouvimos recorrente a metáfora de que “os extremos se tocam”, tocando-se, assim, os gélidos desertos lapões com os abafados desertos alentejanos, a concepção de identidade como uma oposição ao domínio e influência estrangeira, a forte concepção de social-democracia sobre a qual ambos os países habitam.
Este trabalho propõe-se a explorar estas jangadas de pedra, as suas viagens, os materiais sobre a qual são construídas, as estruturas, as formas, as texturas de cada elemento, o ego dos Homens que as navegam, os destinos e, mais importante, as viagens, para que mares navegam estas periferias, como se tocam, como se distam, que contrastes, que lugares comuns?